Quarta-feira

consoada de uma mulher sozinha

chegas a casa com as mãos
cheias de sacos e vincadas
pelo esforço. o silêncio é escuro
antes de acenderes a luz; depois
o silêncio é o mesmo, mas ilumina
a solidão nos objectos da casa. largas tudo
logo à entrada. acendes a luz fria da casa
de banho. pegas no elástico, agarras os
cabelos, escuros. e lavas o rosto. ele
vai ficando na água. até que o faças
escorrer pelo ralo: sem nenhum som.

Domingo

a água no balde, a tua mão no meu ombro

o coração parado quantos anos tenho?
vens do poço, do lado calmo da tarde, trazes um balde
de água fresca na mão direita, o teu corpo
meneia com o peso da água, ficas aqui um pouco
olhas comigo, temos agora a vida à nossa frente
como se fosse de uma mão à outra, se abríssemos os braços

voltas para dentro da casa, vou ficar aqui
sentado como dantes desde quando? entre as mãos
seguro o que resiste a todas as perguntas
o coração parado (desde quando?) e este rasto de ternura
que deixaste a arder atrás de ti
quando entraste na casa.