Sexta-feira

profecia (à tua espera) no bijou do calhariz

virás descendo a rua quase
às cinco horas com o teatro
da trindade a mover-se lentamente
à tua esquerda, apressas o passo (estou
à espera) por isso o teatro também
se apressa na direcção do miradouro
agora em obras, há um batente à tua direita
que vai soar com violência por três vezes
momentos depois de atenderes o
telefone, do outro lado
da rua um arrumador conta
a vida a um passante, há uma mulher
quarenta anos está na igreja e
ajoelha-se. isto: no momento em que dirás
estou, joão vai entrar um homem a chorar
depois de ver aberta aquela porta, o arrumador vai dizer
apaixonei-me tanto tanto que o desgosto escureceu-me, e
zás, vim sempre a cair
, nesse momento em que o teatro
já terá chegado ao miradouro, uma mulher
dos seus quarenta anos, nesse momento dirá
sem que ninguém a ouça, ajoelhada na igreja, a voz
sumida, sem que ninguém a ouça, dirá
(ajoelhada) os olhos no silêncio, agora:
pai. eu
à tua espera no bijou ainda ouço
a voz de uma mulher que pede a conta
e sai rápido, o empregado diz boa
tarde a alguém que entra (ouço) e
eu escrevo aqui ao lado no caderno (agora)
um verso escondido à tua espera
se vieres.