27.11.07

cerrados, os olhos deixaram-na quase

escreves. com a mão esquerda, vejo
a força com que ela te segura à cadeira.
(corte). ontem, já tarde, contaram-me
à força de chorar, dentro de casa, estores
cerrados, os olhos deixaram-na quase
sem ver. calo-me. há choros maiores do
que o corpo que habitam, penso (sem som).
paras. conduz-te à cozinha uma hesitação – porta
aberta demasiado depressa? diz-me.
(corte) ao telefone dizem-me, junto ao polegar
as palmas das mãos, negras, maria, foi
do embate, apoiar-se antes que chegasse o fim
da queda (e tão duro, este asfalto). voltas,
sentas-te. sem que dês conta, e enquanto a mão direita te prende
a uma palavra (por meio de tinta azul), a esquerda
já de novo te segura, branca de força, ao escuro
castanho dessa cadeira. (saio) para a soleira da porta, onde chove
muito. demoro ali. fico abeirado entre a cortina dos céus e
a porta que depois sobe. tu, no cimo, conduzes
com uma mão apenas, o medo ao seu lugar de
pedra, e pasta. lembro. (corte). havia cadeiras
e nós corríamos entre risos à volta delas, e sentarmo-nos
era a nossa forma pequena de nos sabermos ainda
continuamente ali, em pé e correndo à volta. é bom, esse
e outros riscos na memória. (corte, e água). atravesso
a rua estreita. entro no café. molho-me pouco, tal a distância
dos passos com que o faço. sento-me sozinho a uma mesa.
tu em cima viajas pela casa, quando o azul te sobressalta
muito aberto. e eu sei que é uma condição ficar assim (fico)
entre a cortina dos céus, e a porta atrás que depois sobe.

19 comments:

menina limão disse...

gostei muito.

"há choros maiores que
o corpo que habitam" - é teu?

bruno .b.c disse...

é. (mas já sabes como é que isto funciona: as palavras ensinaram-mas e são nossas, os choros às vezes também, e o corpo - às vezes curto).
não sei porquê, mas gostei que gostasses deste.

menina limão disse...

:)

eu perguntei por causa do itálico. é que gosto particularmente desse verso e tinha estado minutos antes a falar de choros abruptos, maiores que o corpo (para te roubar a expressar).

bruno .b.c disse...

eu percebi, e o itálico também.
não sei porquê (ou melhor, sei, e tu também), desenvolvi certos anticorpos lexicais que me impedem de ler as duas palavrinhas assim juntas - choros abruptos - sem um certo desconforto..
e rouba, depois eu mando o gajo das cobranças.

gabriela r martins disse...

pura
e
simples
( mente )

DIVINO

.

um beijo

Jorge A. S. disse...

Também venho gostar um pouquinho/muito com a vossa permissão...

bruno .b.c disse...

ó gabriela!.. então isso são modos?
(é que afugentas os pássaros todos, com maiúsculas dessas).
abraço bom.

bruno .b.c disse...

obrigado, jorge.
(gostei bastante do humor desse comentário)
um abraço.

menina tóxica disse...

e eu que gostei destas mãos. e da força delas.

(e isto está memso bonito)

sorriso tóxico*

ela disse...

"há choros maiores que
o corpo que habitam"





Belíssimo o teu poema.Bruno.

_________/


Abraço.D´aqui.

sophiarui disse...

( )

Anónimo disse...

mt interessante o blogue. n conhecia.

deixo uma dica de um autor novo que merece ser divulgado:

www.tiagonene.pt.vu

Bi.

bruno .b.c disse...

tudo certinho, tóchica.
(gostei do "memso" bonito)
e um desses também.
não tóchico, mas brunino.

bruno .b.c disse...

obrigado pelo bom sempre das visitas, ela. e bom que tenhas gostado. abraço desses.

bruno .b.c disse...

um abraço, sophia.
(até é parecido com esse sinal, assim sem pontinhos)

aida monteiro disse...

molhinhos de abraços.

Vanessa disse...

já quase me tinha esquecido como é bom estar por aqui.

:)

bom. muito bom mesmo.

beijinho*

bruno disse...

obrigado, aida.
é bom isso, quando vem assim aos molhos. um desses para ti.

bruno disse...

um abraço, vanessa.
(não esqueças que há sempre o cerbon 6..:)