18.1.08

verão azul, episódio *: a fuga de osíris sousa

falo-te com franqueza não
venhas aqui todo eu
me desmembro pela casa compreendes
pois a desarrumação que te receberia
se viesses
e de novo primo
o botão do alta-voz aproximo-me
do auscultador quero ouvir-te do
outro lado não dizes nada pouco
depois desligas não entendo vens?
que quer isso dizer? pego no casaco e
saio com ele na mão direita está frio
não o visto até chegar ao fundo
da rua começo a correr o sangue também
muito em todo o corpo sinto-o tenho calor
fujo fugir aquece-nos sempre porque
foges?
se estivesse sentado naquele café
e me visse passar a correr como corro era
isso que me perguntava e olha
até que podia parar e responder-me: não sei
e tu em que pensavas antes de
me vires passar assim a correr? fujo
sabes o que é isso não? estava à espera
de ver alguém fugir era nisso que
pensava
dizes, agora à frente posso virar
à esquerda e subir para a serra ou à direita
e descer (corro sempre) vou descer sempre
que fugimos queremos descer é que no fundo
só no fundo podemos esconder-nos se calhar já me tocaste
à campainha quem chega como tu chegas
quantas vezes toca? e com que urgência
o faz? bem já devo ter descido bastante
de algum lado penso que vejo o fim
rápido das coisas e que isso (nota: tenho mãos
vazias mas dois dedos de conversa) me entristece
devo passar tempo demais na praia e olhar muito
para onde olho e deixar correr a areia muitas vezes
da mão esquerda ou então não, há uma bicicleta encostada
ao portão verde de uma casa aqui a meio caminho do fundo
deste vale daqui já vejo o mar a serra
ergue-se atrás de mim olho confirmo sintra há
uma lua dentro dela rápido pego na bicicleta
tenho calor deixo o casaco em cima do portão
verde é uma troca justa não é roubo sento-me
vou pedalar até ao fundo isto é que é velocidade
até pode ser que continuando assim aviste enfim um talvez um
azul qualquer

(como não me apetecem onomatopeias, o leitor aqui deve assobiar
o tema da série televisiva, e se rir ao fazê-lo e isso lhe afectar o assobio
peço que continue a tentar se não se importa: ajude o autor)


17 comments:

musalia disse...

fugir é a minha especialidade, assobiar, não sei. andar de bicicleta nunca consegui. fujo, então. mas deixo um abraço mais abaixo, sobre o portão azul. anil.

Ela disse...

falo-te com franqueza não
venhas aqui todo eu
me desmembro pela casa compreendes.
_________________

"Mesmo no interior do quarto .
És o lado de fora da casa."

Daniel Faria.
trouxe-me assim à lembrança.

Perdoa Bruno,

não sei assobiar.

um abraço que se erga daqui-aí.

mar disse...

ai
possas!!!

possas que já tava com saudades de tu!
possas que esta música entrou pelo mar adentro
sem avisar!

possas bruno,
que
tu escreves
tão bonito!!!

coisas boas
pra ti
e horas e dias e cores tudo e tudo

bruno disse...

há muitas fugas, de facto.
aqui houve também divertimento de cruzar alguns azuis e outras cores ou nem tanto.
é pena: bicicleta e assobio.
abraço, musalia.

bruno disse...

não sei se perdoo, ela.
(nem uma ajudazinha?)
mas como trouxeste o daniel,
leva um abraço.

bruno disse...

mar, em quatro possas, concordo com três (os primeiros): entra mesmo; e eu também.
obrigado os dois tudos (há sempre um que é para enganar, e o outro é que é), e azuis de volta.

nut/rocha martins disse...

tudo é demais em tudo o que escreves

e tudo é demenos no muito que nos esperas

fazes falta

na escrita ,amiúde

.
pelo menos a mim
.


um beijo pelo mais

nut/rocha martins disse...

a propósito ,bruno!
verificaste que te fiz "senhor de templates" em meus blogues ,[ mencionando os direitos de autoria ,claro! ]

.
quando amo demais o belo ,não resisto .defeito ,feitio? tanto faz


.
outro beijo

blue disse...

azul plúmbeo
azul marinho
azul de prússia
azul celeste

ana salomé disse...

bolas... isto é como ir ao cinema e ficar com a vida suspensa.

muito muito bom.

bruno disse...

agradeço-te, gabriela.
(quanto às caretas do blog, não precisavas, e estás à vontade, como é óbvio)
abraço.

bruno disse...

não deixa de ter piada
"blue", vires aqui azular
nos comentários.
abraço e bons dias.

bruno disse...

salomé, agradeço.
(isso do cinema, que significa?)

ana salomé disse...

há filmes que são poemas e há poemas que são filmes.
acho que era isto.

bruno disse...

percebo-te (e em parte até concordo). era aquilo da suspensão que me questionou.. abraço.

aida monteiro disse...

será que ainda chego a tempo de dar uma mãozinha ao autor?
ups!o assobio de vez em quando falha e assim com o vento (e sempre a descer e a velocidade e o riso e isto tudo) e os cabelos a rodopiar, fhff-fhff é dificil o assobio sair direitinho. posso cantarolar?

tá tá tá tá
tarara

tá tá tá tá
tarara

:) um beijinho.

bruno disse...

sempre a tempo, aida
de chegar, e (já agora)
de dar uma mãozinha.
neste caso: um assobio
difícil (espero, é sinal
de riso), ou cantarolando
umas notas. um beijinho.