escreves. com a mão esquerda, vejo
a força com que ela te segura à cadeira.
(corte). ontem, já tarde, contaram-me
à força de chorar, dentro de casa, estores
cerrados, os olhos deixaram-na quase
sem ver. calo-me. há choros maiores do
que o corpo que habitam, penso (sem som).
paras. conduz-te à cozinha uma hesitação – porta
aberta demasiado depressa? diz-me.
(corte) ao telefone dizem-me, junto ao polegar
as palmas das mãos, negras, maria, foi
do embate, apoiar-se antes que chegasse o fim
da queda (e tão duro, este asfalto). voltas,
sentas-te. sem que dês conta, e enquanto a mão direita te prende
a uma palavra (por meio de tinta azul), a esquerda
já de novo te segura, branca de força, ao escuro
castanho dessa cadeira. (saio) para a soleira da porta, onde chove
muito. demoro ali. fico abeirado entre a cortina dos céus e
a porta que depois sobe. tu, no cimo, conduzes
com uma mão apenas, o medo ao seu lugar de
pedra, e pasta. lembro. (corte). havia cadeiras
e nós corríamos entre risos à volta delas, e sentarmo-nos
era a nossa forma pequena de nos sabermos ainda
continuamente ali, em pé e correndo à volta. é bom, esse
e outros riscos na memória. (corte, e água). atravesso
a rua estreita. entro no café. molho-me pouco, tal a distância
dos passos com que o faço. sento-me sozinho a uma mesa.
tu em cima viajas pela casa, quando o azul te sobressalta
muito aberto. e eu sei que é uma condição ficar assim (fico)
entre a cortina dos céus, e a porta atrás que depois sobe.