21.11.09

o meu coração espera por ti num haiku desportivo e oriental

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9.11.09

do volume (ou da possibilidade)

escrevia-te agora um poema de amor
mas as tuas mamas enchem por completo
as minhas duas mãos, e não tenho como
pegar na esferográfica.

30.6.08

lux aeterna, depois de Ligeti

escrevo isto porque é importante
dizer-te que acabaram as velas
cá em casa e se a luz um dia
faltar fico completamente às escuras.

3.6.08

da dualidade, funâmbulos, e considerações de carácter luminoso

na rua, como se houvesse sempre
uma linha imaginária: braços abertos
nós íamos os dois, tu à frente e eu
à frente, na outra vez. e claro, nós
desequilibrávamo-nos ou caíamos. às
vezes, tu para um e eu para outro
lado; outras vezes era os dois juntos
para o mesmo. se havia sol? acho
que sim, havia: dos dois lados
da linha. e também quando chovia
era giro pois íamos no mesmo
guarda-chuva, tu chegada para trás e
eu muito chegado para a frente.
(e quando caíamos, ainda havia sol
dos dois lados)

28.5.08

anotação para reflexões avulsas sobre os graves e a verticalidade

isto numa rua: primeiro, franziste
os olhos, depois fechaste-os (estava
muito intenso, o sol, 3h) e nisto
enquanto caminhavas1 bem mais
lento do que antes de te defenderes
da luz, logo acima de ti, ouviste
passar longamente o som pesado
de um avião.

1 não paraste

14.5.08

sobre o sono, a história, e o arroz

é bom adormecer, disse
ele. ela: mas não aqui.
(ao volante)

18.4.08

aproximação ao escuro

certamente que nisso que
dizes há alguma coisa
que esquecemos. espelhos e
mais espelhos onde o tempo
de ficarmos a olhar foi de
menos, quem sabe? um grito
não nos desviou disso que quase
se mostrava? hoje, a porta
ficou entreaberta, os risos
na sala ao lado são
os nossos, e pouco ou nada
no vidro deste copo se
mostra, mesmo que o deixemos
vazio (depois de um pouco
hesitarmos) num só trago.

12.3.08

estrada início

pouco depois do autocarro
sair da gare, ela, no caderno
escuro, escrevia a lápis: dentro
de dois dias, chegar será
o meu modo de dizer
sim. (e sublinhou a palavra)

5.3.08

on photography

com isso conseguia erguer melhor
o copo, um ou outro verso não
demasiado curto, até ocasionalmente
sorrir. e nem o fazia no fundo apenas
por troca com as palavras que às tantas lá
nos falham. desta vez é domingo. só
a júlia atrás do balcão espera
que a noite termine, para se ir embora.
as manhãs são ruínas, pensa (ele) e
todavia, nem por isso as noites são menos
fortes. vinte euros nem é caro. levanta o
último copo no ar. sorri à júlia,
brinda com ela ao seu regresso (finalmente)
a casa. e olhando pela base do copo
(a júlia só pensa no fim da noite) sorri
àquela íntima ausência, teimando no coração
de tanto ou quase tudo.

13.2.08

aproximações ao sentido alto de uma lullaby

janela aberta metafórica dos eventos. tu
descalças-te. ergues, como convém, os sapatos
a meia altura. e é então que a areia começa
a cair. à volta a praia parece-me habitada
por pouca gente: a esta hora, quase noite
e dezembro, há alguns que passeiam cães
e outros correm, jogging com ou sem cães correndo
a seu lado. e tu ergues (parecem-me) duas ampulhetas
aqui, mesmo nos degraus do angra que já fechou.
a areia escorre e no sapato esquerdo o vento
aproxima-se numa rajada. dele e também dos teus cabelos
que se agitam no ar. (tudo se move). literariamente,
a areia ainda escorre. isto enquanto em mim
reconheço, sinto que também escorre alguma
ternura. estou encostado ao varão e por isso
tal como agora o vento, muito próximo de te ver
por completo o pescoço. escrevo mais um poema
com praias e vento, já contei cinquenta e sete vezes
a chegada do verão, tenho saudades tuas e uma praia
(lá está) vazia e muito muito vento à minha frente.

30.1.08

algum questionamento sobre a refracção e outros fenómenos

sei que os caminhos de regresso estão cheios
de gente de chapéus coloridos, contentes, quase
crianças, como se enfim existisse um regresso
o que (parece) não há. se perguntar
para o lado: sabes que não há nenhum
regresso?
estou até quase certo que
dirão: sim, sei e continuaremos
no mesmo caminho de regresso.
porque onde há caminhos há regressos
inventados. como se não pudessemos caminhar
sem acreditar que regressamos
para alguém para algo. é se calhar até por isso
que o hélio dos balões quando sobem sempre
nos sobe muito a voz lá muito para os agudos
animados. e rimos, e depois os balões
esvaziam-se num rodopio pela casa; ou
se calhar tens razão, isto venha a despropósito.
nisto, o que te pergunto é se compreendes: o
regresso é o amor. e nós
inventamos o amor até nos lugares mais improváveis
os nossos indicadores descobrem o destino
das viagens num mapa ainda
às escuras, e regressamos. há um sentido
até mágico se por exemplo entrares num café
numa mercearia e pensares: estou
a regressar
. porque logo o amor
se inventa, e o lugar regressa, diz-te (como
se dissesse): sim, é aqui
que tudo começa, que
tudo se renova
. o amor
é um mapa consideravelmente grande. no lugar do pendura
e com ele aberto assim entre as mãos ele cobre
praticamente todo o tablier e não vês nada pelo pára-brisas.
é mesmo muito grande (dá para perceber) nele
os nomes de todos os que existem como novas
cidades ou destinos podem ser encontrados.
agora beijo-te. digo boa noite e é como se entrasse
numa dessas tuas ruas, num café perguntasse
o horário do autocarro até ao parque, no mercado
ouvisse a d. eulália falar-me da frescura
daquelas laranjas. beijo-te. nenhum regresso
existe. ainda assim (parece) regressamos.

18.1.08

verão azul, episódio *: a fuga de osíris sousa

falo-te com franqueza não
venhas aqui todo eu
me desmembro pela casa compreendes
pois a desarrumação que te receberia
se viesses
e de novo primo
o botão do alta-voz aproximo-me
do auscultador quero ouvir-te do
outro lado não dizes nada pouco
depois desligas não entendo vens?
que quer isso dizer? pego no casaco e
saio com ele na mão direita está frio
não o visto até chegar ao fundo
da rua começo a correr o sangue também
muito em todo o corpo sinto-o tenho calor
fujo fugir aquece-nos sempre porque
foges?
se estivesse sentado naquele café
e me visse passar a correr como corro era
isso que me perguntava e olha
até que podia parar e responder-me: não sei
e tu em que pensavas antes de
me vires passar assim a correr? fujo
sabes o que é isso não? estava à espera
de ver alguém fugir era nisso que
pensava
dizes, agora à frente posso virar
à esquerda e subir para a serra ou à direita
e descer (corro sempre) vou descer sempre
que fugimos queremos descer é que no fundo
só no fundo podemos esconder-nos se calhar já me tocaste
à campainha quem chega como tu chegas
quantas vezes toca? e com que urgência
o faz? bem já devo ter descido bastante
de algum lado penso que vejo o fim
rápido das coisas e que isso (nota: tenho mãos
vazias mas dois dedos de conversa) me entristece
devo passar tempo demais na praia e olhar muito
para onde olho e deixar correr a areia muitas vezes
da mão esquerda ou então não, há uma bicicleta encostada
ao portão verde de uma casa aqui a meio caminho do fundo
deste vale daqui já vejo o mar a serra
ergue-se atrás de mim olho confirmo sintra há
uma lua dentro dela rápido pego na bicicleta
tenho calor deixo o casaco em cima do portão
verde é uma troca justa não é roubo sento-me
vou pedalar até ao fundo isto é que é velocidade
até pode ser que continuando assim aviste enfim um talvez um
azul qualquer

(como não me apetecem onomatopeias, o leitor aqui deve assobiar
o tema da série televisiva, e se rir ao fazê-lo e isso lhe afectar o assobio
peço que continue a tentar se não se importa: ajude o autor)


13.12.07

verso e reverso dos movimentos muito próximos, falsas dinamologias

#um

lento (lentinho) caminha
no teu quarto, o cortejo
fúnebre


#dois

rápido (muito rápido) corre
para a estação, a joana
quarta-feira às sete horas

27.11.07

cerrados, os olhos deixaram-na quase

escreves. com a mão esquerda, vejo
a força com que ela te segura à cadeira.
(corte). ontem, já tarde, contaram-me
à força de chorar, dentro de casa, estores
cerrados, os olhos deixaram-na quase
sem ver. calo-me. há choros maiores do
que o corpo que habitam, penso (sem som).
paras. conduz-te à cozinha uma hesitação – porta
aberta demasiado depressa? diz-me.
(corte) ao telefone dizem-me, junto ao polegar
as palmas das mãos, negras, maria, foi
do embate, apoiar-se antes que chegasse o fim
da queda (e tão duro, este asfalto). voltas,
sentas-te. sem que dês conta, e enquanto a mão direita te prende
a uma palavra (por meio de tinta azul), a esquerda
já de novo te segura, branca de força, ao escuro
castanho dessa cadeira. (saio) para a soleira da porta, onde chove
muito. demoro ali. fico abeirado entre a cortina dos céus e
a porta que depois sobe. tu, no cimo, conduzes
com uma mão apenas, o medo ao seu lugar de
pedra, e pasta. lembro. (corte). havia cadeiras
e nós corríamos entre risos à volta delas, e sentarmo-nos
era a nossa forma pequena de nos sabermos ainda
continuamente ali, em pé e correndo à volta. é bom, esse
e outros riscos na memória. (corte, e água). atravesso
a rua estreita. entro no café. molho-me pouco, tal a distância
dos passos com que o faço. sento-me sozinho a uma mesa.
tu em cima viajas pela casa, quando o azul te sobressalta
muito aberto. e eu sei que é uma condição ficar assim (fico)
entre a cortina dos céus, e a porta atrás que depois sobe.

14.11.07

para flauta, violoncelo e sala

regresso aos teus olhos.
escuros como batalhas.
sem prosas, hoje respiro.
digo: ouço. (e perto,
lembro-me: escuros).

uma sala vazia é melhor.
para a ressonância:
do violoncelo, entendes?
hoje regresso a eles. sem
acentos, nem perguntas.
estendo-me no chão da casa

e recuo. deixo a vertigem
(várias) as estações (o próprio
tempo, se pudesse). digo:
ouço. saio da locomotiva
a meio do percurso. digo
que me sinto mal, e sento-me

longe dos aparelhos. regresso.
uma sala vazia é melhor. entro.
levo a mão direita dentro
do casaco. (lado esquerdo). o frio
repara nisso.

12.11.07

o Livro de Afa, ou o 161

nisto de correntes, tenho chegado, mas com atrasos. lá vai a quinta qualquer coisa completa de um livro à mão (escrevo no meio deles. teria dado jeito se o regulamentador tem pensado que mão. a minha, que sou dextro, foi a esquerda; a distância, só a de um braço; a altura, a dos meus olhos.), na página 161 (para que conste, o livro tem seiscentas e tal páginas, e o meu polegar, também o esquerdo, abriu-o exactamente na fala de Afa, o que é dizer na centésima sexagésima primeira), quinta frase (a supradita qualquer coisa completa).
dizia ainda aquilo de continuar a corrente. e está continuada (pensei em cento e dezassete blogues: só por isso, desisti de os listar). a corrente, essa, estranhamente, chegou-me (invertendo sentidos) da mar.


Ici encore Gilberte exprime très nettement la pensé de son frère: «Il ne metais pas beaucoup de différence entre la tendresse et la charité, non plus qu'entre la charité et la amitié».


Philippe Sellier, Pascal et saint Augustin, edição da Albin Michel.

havia o desejo (de escrever a palavra petiz num título, pela segunda vez, e editada)

queria muito perguntar-te: quantos braços há
na terra? e se os tem, abre ela os olhos, quando
as noites nos mergulham?

(dentro d'água?!)

9.11.07

havia o desejo (de escrever a palavra petiz num título)

queria muito perguntar-te
quantos braços há na terra
e se os tem, abre ela os olhos
quando as noites se levantam?



31.10.07

brincar aos crepúsculos

ao amanhecer os teus olhos anoitecem:
é que pouso neles, feridas mas leves
as minhas duas mãos.

23.10.07

minor observation

esperas o silêncio com a mão do lado
de lá do vidro: a água quente que corre
nas torneiras, no fim da noite, não chega
para deixar-te o rosto desmaquilhado
e limpo, antes do novo dia.

19.10.07

já tinha anoitecido e era muito próximo da boulevard saint germain

vitórias menores, no quarto com janelas
fechadas. seis da tarde, se saíres
para o corredor há uma luz acesa
que diz exit. isto é um hotel e
é janeiro. quarto piso. cadernos
na tua mala, projectos, futuro, e
nos fundos falsos de tudo isso
um q. b. de solidão. tu apagarias
a luz do quarto, antes de sair para
o corredor. se tivesses saído. mas
não. deve haver bebida no bar, imagino
que pensas. é que vejo-te abrir a porta
pequena, madeira fingida, e sentares-te
na cama com vidro na mão. daqui, agora
não vejo com segurança, mas parece
que bebeste tudo. rápido. talvez desejes
demais o que não sabes para
não te dirigires ao efeitos sem
demora. agarrar onde possas as leis
da mudança. mas nada muda, pensas
estou certo. por isso abres uma outra
vez a porta pequena. seis horas
e meia. (entretanto, já percorreste
memórias, certamente concluíste
interrompeste, recusaste
mas não dei conta). as luzes
de alguns automóveis que curvam
ao longe, embatem nas cortinas fechadas
que clareiam um pouco. às vezes olhas.
é alto, mas ouve-se o som das estradas
molhadas, enquanto as percorrem carros, uns
mais cedo que outros. choveu, e agora
chove menos. estarias aqui no verão
quase aposto, não afirmas nenhuma relação
entre a chuva e o que se diz da tristeza. é que
ela já esteve nua diante do sol, dizes
e não morreu. vejo mais vidro na tua mão.
garrafa pequena, na mão direita, olha-la
na esquerda agora, entre as duas e
de novo na direita coloca-la na mesa
ao lado da cama. sentado, agarras onde
sabes nada podermos quanto às leis da mudança
e choras: entre as mãos, onde antes
estava a garrafa. tudo acontece muito
antes de aí chegar, é verdade. já são quase seis
horas em portugal, e tenho compromissos. à
saída ainda vejo acesa a luz que diz claramente
exit. faço contas aos fusos horários, e apresso-me.

17.10.07

deslocados do postigo até à porta de casa, vasos

creio sobretudo que quando morremos entramos
num sketch dos monty python acredito mesmo nisto assim
como estou convencido que o algodão doce é mesmo
a forma acertada de começar a pensar o problema da
globalização. a malta arrasta por aí os entreténs suaves
como cigarros até à boca depois de coiso, e nisto entrevê
que é como quem diz entressonha a brevidade como uma
alta forma de proprioperceptividade um contrabaixo angular
e uma janela. tens comentários sobre isto? parte-me
uma fatia desse bolo por favor, e ao coração ver-te assim
abandonada e a desoras numa estação. trigo limpo caminhar
contigo a noite toda ou quase uma noite completa e ao fim
disso não saber ainda conjugar no futuro
os nossos nomes. hoje, enquanto pedia um
ventil deram-me (na casa universal aqui ao fundo
da rua, sabes?) uma caixa que tinha o dito com um isqueiro
lá dentro a empregada sorriu. isto enquanto dizia quatro
e meio e me deixava o bolso cheio daquelas moedas horríveis
de cinquenta cêntimos. jogava pinbóis a tarde toda com elas
não fora haver poucos antros aqui à mão. e às vezes fico mesmo
cansado. é a porra de uma espécie de portadas metafísicas
que se fecham em tudo quanto é sítio e um gajo ali
sem direcção ou um snooker onde brincar à vez com as leis
da física. prefiro bilhar (tu sabes isso) de três tabelas mas
aqui pensei ficasse melhor mais ajustado preferir o dito
snooker. e há ainda a questão dos buracos, que na mesa
de bilhar não encontras. mas olha: merda e merda e muita merda
para os símbolos, apetece dizer. estou farto destes
gajos que vivem em dois mundos. bígamos
de merda. eu nem um. e por isso quando choro (ou isso) não
há água onde o faço. e paço também: rima. se vires bem
na mala tens lá moedas. podes sempre telefonar-me, se quiseres.

12.10.07

não era previsível uma ondulação daquele tipo

a garrafa partiu-se no porão do barco
algum whisky saltou para as tuas pernas
quase a dois terços descobertas.
isto enquanto em volta havia metal
e maquinaria náutica na qual pouco
ou nada reparámos. o barco estava atracado.
para nós a nenhum porto. estávamos ali
e já quase só olhávamos em volta. isto
depois de termos conversado, até que ficassem muito curtas
as frases que dizíamos. lembro que partilhámos
em dado momento interesse quer pelas canções do mar
quer pelas da terra, quando ambos estão feridos
de imperfeição e ausência.
decerto despimo-nos nessa noite, mas não importa.
não o fizemos para declarar uma qualquer contingência
ou oculta permanência do que acontece, nem para fins
de uma qualquer afirmação que aqui ou noutro lugar
coubesse inteira. talvez, e isto o penso agora apenas
para sonhar um pouco que existíamos.
chamavas-me bruno que é como eu me chamo.

4.10.07

a pulseira no tornozelo colocada
há poucas horas, e espantada agora
com o fim da noite como
não perguntar para que é que eu
pus aqui esta merda?
se subisse
agora a colina via que só eu
estou aqui e ouço o som da manhã
a chegar. (merda de pulseira) e nisto
fazes com que voe esse resto que
o sono não domina e no ar
até desfazer-se na calçada ainda
nenhuma sombra é visível do
pequeno objecto. bye, bye, ruby
tuesday
ouves no rádio (o volume
cresce, por isso aproximas-te) num carro
branco enquanto desces dois vultos
agitam-se dentro do automóvel e parece
ainda dentro da noite passada.
dizes bom dia alto (embora
eles nem ouçam) e julgas vingar-te da noite
que já acabou para ti.

25.9.07

observação aqui sentado e lendo rilke

ao longo do muro vejo só
um chapéu azul. o muro
é pequeno por isso, do outro
lado, é certo que caminha
devagar uma criança.

16.9.07

trindade sem motor

tenho as mãos quase juntas
assim, em segredo, conduzindo
à tua espera a minha palavra
sem fingimento. fonética difícil
a que nos bate tanto. é que nem
sempre uma espera nos procura
as mãos (assim) quase unidas. as
estradas são bem mais longas do
que parece. triciclo, digo-te. e nisto
entrego o segredo de alguns mundos: o cabo
de uma bengala, um cabide logo à entrada
sem casaco, o gelo num cocktail azul
de verão (coisas destas). a palavra
sorri ao deixar as minhas mãos, e chega
onde tu a esperas. (triciclo). yupi, pareço
ouvir quando ela chega, e beijo-te com
um coração aos pulos.

11.9.07

pensão do amor fácil, tautologias

não encontro outra forma
nestes dias, de supor
a noite extinta, o quarto
visitado, a não ser
que entres, e tragas contigo
uma lanterna.

6.9.07

lanche sombra e emboscada

devo ter deixado a mala no autocarro às três
da tarde quando disseste não me visites já
não vivo onde virias se seguisses o caminho largo
que te pulsa e traz assim até aqui. não fui
eu que desliguei o autocarro a praça e a
paragem com guarda-chuvas e mais mulheres
que homens enfileirados para entrar: foi
o tempo de dizeres não é agora aqui que existe
o que existe: agora aqui existe o que nos falta.

22.8.07

viagem e motel de motorizada

dedica-me um traço descontínuo
na auto-estrada. uma árvore ou um letreiro
bastam-me agora de sombra, a luz
no escape cromado da motorizada
cega, e é já quase meio-dia. dei
saída no motel de manhã cedo, a viagem
é de novo uma coisa pura. perto
muito perto, de ser quase insuportável.

3.8.07

agosto, errata para um índice e vice-versa

desce do andaime. anda
ver. o mar não se encontra
aí em cima.

20.7.07

profecia (à tua espera) no bijou do calhariz

virás descendo a rua quase
às cinco horas com o teatro
da trindade a mover-se lentamente
à tua esquerda, apressas o passo (estou
à espera) por isso o teatro também
se apressa na direcção do miradouro
agora em obras, há um batente à tua direita
que vai soar com violência por três vezes
momentos depois de atenderes o
telefone, do outro lado
da rua um arrumador conta
a vida a um passante, há uma mulher
quarenta anos está na igreja e
ajoelha-se. isto: no momento em que dirás
estou, joão vai entrar um homem a chorar
depois de ver aberta aquela porta, o arrumador vai dizer
apaixonei-me tanto tanto que o desgosto escureceu-me, e
zás, vim sempre a cair
, nesse momento em que o teatro
já terá chegado ao miradouro, uma mulher
dos seus quarenta anos, nesse momento dirá
sem que ninguém a ouça, ajoelhada na igreja, a voz
sumida, sem que ninguém a ouça, dirá
(ajoelhada) os olhos no silêncio, agora:
pai. eu
à tua espera no bijou ainda ouço
a voz de uma mulher que pede a conta
e sai rápido, o empregado diz boa
tarde a alguém que entra (ouço) e
eu escrevo aqui ao lado no caderno (agora)
um verso escondido à tua espera
se vieres.

8.7.07

definição à tarde num domingo

amor: pela enésima vez, fecha
e abre os olhos.

3.7.07

a despropósito de um cão e gato

quando quiseres dizer o homem
saiu de casa à noite, não digas o
homem saiu de casa à noite por
aí não vais dizer o homem
saiu de casa à noite. (ou antes: di-lo
mas repetidamente: até que seja noite
e saias de casa, tu também.)

28.6.07

tratado breve das paixões da alma

peço perdão, disse
o motorista para trás.
senhora, bombons
só no outono.

22.6.07

na rua havia toda a espécie de vendedores e artesãos

trazes o voltaire debaixo do braço e as mangas
a esconderem-te as mãos desabotoadas. dizes: olha
o que me fizeram as pombas enquanto esperava.
logo acima do título cândido ou o optimismo na
recente edição da tinta da china tradução notas e
posfácio do rui tavares as pombas tinham feito
o que fazem também em pleno voo, mas aqui
não era o caso. não ri. tu perguntaste há algum sentido
para isto? a olhar-me. quase choravas. qualquer um
teria visto que isto não era isto. o teu, se as tivéssemos
(mãos invisíveis) era indicado com indicadores para
muitos lados. não encontro, disse. já pensava que não
retorquiste. e ainda mas não achas que há e nós é que não
o encontramos? tomamos café? respondi
de volta. é tudo uma tragédia tão enorme e asfixiante
dizes, depois de olhares (eu acompanhei-te) um pouco
não sei bem para onde talvez para um lugar de mãos
invisíveis no rosto, se as tivéssemos. eu
nunca vi ninguém mexer o café como tu o fazes. a tua mão
numa quietude de anúncio, e imperceptíveis só alguns
dedos proporcionam a união suprema aos elementos. como
tens andado? bem, e tu? tenho por função existir apenas
aqui estão as questões que não ousas colocar, assim
a ti mesma, não digo o que me disseste de volta. este, penso
não é o modo nem o lugar próprio. digo só que a dada altura
as pombas fazem o que fazem, também em pleno voo.
na mesa do café, logo acima do cândido ou o optimismo uma mancha
clara ainda se notava. é pois o que acontece, quando
andamos nas ruas, e as aves no céu.

20.6.07

instalação poética para dias futuros

avião rumando para a ota.
(negro) claro, amo-te.

16.6.07

janeiro é lento (lento, o início
dos semestres). a tua mão, cifra
a tua mão. descobre-me isso
que respira rápido.

11.6.07

na grande casa não vês escrita nas
vigas (há umas quantas) a indicação
pendura-me, ao pescoço, o meu nome

8.6.07

isto não tem título porque anda
sem t-shirt. no peito não tem escrito
porque olhas?

6.6.07

estação de chegada: o corpo
cansado. travessia. uma nuvem
ganha ferrugem, e (por muito que olhes)
chove.

1.6.07

relato dentro das minhas possibilidades de um concerto

(celebração)

toma, pega neste pedacinho
de noite e passa-o pelo corpo
antes de te deitares
. o fisicista
beijava a mulher e olhavam ambos
pedaços de terra antes de manipular
os elementos. aprender música
dizia o joão é como aprender a andar
de bicicleta
. e explicava: o silêncio
é a terra batida e ao início ainda
tememos a sua força ele está sempre
lá é nele que pedalas a diferença
está que quando sabes ele tem-te
em equilíbrio porque o equilíbrio
nunca é nosso
. sabes
o que vivi ontem na floresta
da serra ao cair da tarde?
disse
a mariana ao chegar ao concerto onde
o joão a esperava não havia vento
nenhum vento como se o vento
se tivesse ido embora e a sua ausência
congelasse a copa das árvores
e folhas na beira dos caminhos.
toma, pega neste pedacinho
de noite e passa-o pelo corpo
antes de tocares
. uma mulher
chamam-na bela roda com a mão direita
um manípulo na máquina do café e lança
vapor quente para o vazio
da chávena. pergunta alto: deseja
mais alguma coisa?
no largo do palácio
duas nuvens baixam-se e apanham
uma folha que caiu no chão, dizem-lhe:
não é assim que se anda
de bicicleta, não esqueças o ditado
o equilíbrio nunca é nosso.
o joão ajusta o banco, levanta
a tampa do piano no ar e com a mão
esquerda coloca bem alto o suporte faltam
três horas para o concerto pega na chave
e lá começa a rodar as cravelhas ao piano e
a afinar os sons. no intervalo ainda tem de
verificar se eles não mudaram de
lugar. o pêndulo do relógio, se o visses
apressa-se mais do que costuma
acerta as horas pela telefonia e toca
sete vezes, manel está na hora
diz para dentro a mulher do fisicista.
tem as mãos no peito. o rodrigo
afasta-lhe o cabelo do rosto
ele e a ana têm sete anos
e beijam pela primeira vez.
faltam três dias, diz para dentro
a mariana, quantos? pergunta-lhe ainda
a mãe, três grita, o joão disse-me
que era na quinta.
uma nuvem escurece
segue para as montanhas a norte onde
chegada meditará sobre a existência. o coração
a bater-lhe muito, depois de ter subido
tudo até ao cimo. toma, pega
neste pedaço de noite e passa-o
pelo corpo antes de tocares
. o joão recebe-o
nas mãos beija a mariana e agora chama-se
rodrigo tem sete anos e beija-a
pela primeira vez. sara tem de levantar muito os calcanhares
quando abraça (e abraça-o sempre) o marido depois dos elementos
serem manipulados. ficam assim
uma existência.
o teatro já está iluminado, manuel
nos seus vinte anos ajeita a casaca
e aparece do lado esquerdo do palco. ainda
passa o lenço pelo teclado as nuvens também
suam quando sobem pensa, e toca para
a segunda parte. o joão empurra a porta e ouve-se
um sino. avisa em sinês para dentro
que um novo cliente entrara
na loja velha. (sino pequeno, voz
aguda). joão dirige-se ao balcão
respira como uma nuvem cansada
a existência dentro de si. mariana
adoecera. agora, que acabara de ser
mãe. sara olha o marido.
beijam-se e olham ambos
pedaços de terra. manuel vai para dentro
(velho como a loja) manipular os elementos. o sino
toca. um cliente saíra. abraçam-se agora. ficam assim
uma existência.
beethoven, hammerklavier, manuel coloca
ainda as mãos sobre as coxas, depois
distende os braços ao lado do corpo.
vai entrar, respira, é uma sonata, e ataca
as notas com o futuro lá dentro. uma mãe
dá à luz. beijam-se, ela e o marido, e olham ambos
no céu uma nuvem que escurece. a mulher
chamam-na bela ainda roda o manípulo de vapor
quente para dentro da chávena quando
o homem lhe responde não,
obrigado. nada mais. duas nuvens
brancas baixam-se e apanham
um homem que caíra no chão, ele
chora, e tem um pedaço de noite no bolso.
elas dizem: entende agora: é de tudo isto
que se fazem as bicicletas
.

29.5.07

nota. semínima

as tuas mãos não se igualam
às paredes. (por muito que queiras
nelas nunca dependurarás
um relógio.)

22.5.07

tempérie

acendida a fogueira, porém
o medo, o céu clareado, os olhos
quase o vidro. espera
está escrito, na janela embaciada
está escrito.
quente, frio lá fora.
a retina acesa, quase o vidro.
a mão treme-lhe, sobre a janela
e agora apaga. os olhos, está escrito
e a mão
fica molhada.

17.5.07

são agora vinte horas e incontáveis as manifestações do teu corpo

ao titio herberto


o telejornal do teu corpo tem repórteres
que não sabem onde estão microfones
muito altos e um pivot embriagado
que ainda vai conduzir esta noite.
os espaços publicitários estão em branco
(duram horas) e o pivot entra em directo várias vezes
várias vezes com repórteres que não sabem
onde estão e testemunham eles próprios alguns milagres
os microfones muito altos registam o silêncio
dos seus olhos inaugurados.
no telejornal do teu corpo os câmaras
filmam directamente os monitores com os câmaras a filmar directamente os monitores e os planos, todos os planos
repetem-se como numa conversa de dois espelhos, imagem
utilizada por são boaventura no itenerarium
mentis in deum, o primeiro realizador do mise en abyme. no telejornal
do teu corpo não há ficha técnica
os homens dançam com o que existe e há
e não têm nome para tudo isso
e dançam com isso sem nome.
no telejornal do teu corpo
no fim da emissão dirá embriagado o pivot é bom morrer
depois de no início ter dito nascer é bom nascer porque a plenitude
não tem fissuras nem diferenciações ou braços
que bastem para abraçá-la toda. e todos os que vêem
nas suas casas que não existem e muito abertas
compreendem tudo isso sem um nome e as janelas
repetem-se elas mesmas no século treze
numa das páginas do boaventura que agora pega nelas
e as leva a publicar com um novo título
itenerarium apenas.
no telejornal do teu corpo
vê-se tudo isso.

tat tvam asi.

13.5.07

sobre o fado e o gps

parece-me decidido: os astros, nas rotas
quase estáticas dos navios, não anunciam
ao peão que segue na rua do norte, se no fim
deve virar à esquerda, ou à direita, para ouvir
cantar-se o fado

9.5.07

haiku/pop

demoradamente, o ícone
desfaz-se na boca.
rebuçado de mentol:
vox populi.

1.5.07

por dois: nada acontecerá quando o sol (revisto)

os objectos alistam-se como símbolos
mortos1 no chão em escombros da sala a um canto
não há nada, como noutro, à espera
de existir. esta sou eu dizes e ris. eu
não mas ele (que estava lá) riu contigo
um pouco. depois cantaram um feixe de luz
desce e incide a dois metros donde estão
há uma falha no tecto até ao sótão
«as pombas» do Zeca, o que vem
a propósito, e assim ficaram um pouco.
o tempo a girar dentro das conversas.
o sol mais lento só a meio
da próxima hora incidirá onde estão.
e nada: nenhuma ausência acaso reticência
ou infinito nascente dividido assim infinito
por dois: nada acontecerá quando o sol
incidir sobre eles: quase nada.
ele vai sentir apenas aquecerem-lhe os olhos
e vão desviar-se os dois de novo
para debaixo da sombra.


1 veja-se o pequeno texto do vigésimo nono dia do mês nove de 2006 enredado à 1 hora ponto 49.